Em janeiro de 2021, o Innovation Hub do Allied Command Transformation da OTAN publicou um documento de 45 páginas intitulado “Cognitive Warfare: An Attack on Truth and Will”. O texto, produzido por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, descreveu guerra cognitiva como “a militarização da opinião pública por entidades externas, com o objetivo de influenciar o público e/ou a política governamental, ou minar ações e a estabilidade das instituições governamentais”. O próprio título da publicação sinalizava uma postura: o alvo é a verdade e a vontade humana.
Em dezembro de 2025, a NATO Science and Technology Organization publicou um relatório de síntese definindo guerra cognitiva de forma mais enxuta: “a luta pela superioridade cognitiva”. O campo reconhecido como “desafio estratégico de pesquisa” continuava em desenvolvimento.
Entre os dois documentos, quatro anos de debate produziram dezenas de análises, definiram variações do conceito, identificaram problemas metodológicos e não chegaram a uma definição consensual. Esse percurso diz algo importante sobre a natureza do conceito.
O que os documentos da OTAN dizem
A estrutura conceitual mais influente foi publicada em 2022 por François du Cluzel e Bernard Claverie, dois pesquisadores ligados ao Innovation Hub do ACT. No artigo “The Cognitive Warfare Concept”, eles posicionam guerra cognitiva na interseção de dois campos antes tratados separadamente: operações psicológicas e de influência (soft power) de um lado, e operações cibernéticas de outro. A combinação dos dois produziria algo qualitativamente diferente, na visão dos autores: a capacidade de atacar os processos cognitivos e subconscientes humanos, não apenas as informações que as pessoas recebem.
Du Cluzel usou em conferências a formulação “a arte de usar a tecnologia para alterar a cognição” e descreveu o domínio cognitivo como potencial sexto domínio de operações da OTAN, ao lado dos já estabelecidos terrestre, marítimo, aéreo, espacial e cibernético. A proposta nunca foi formalmente adotada. Em análise publicada na Frontiers in Big Data em outubro de 2024, os pesquisadores Christian Deppe e Georg Schaal confirmaram que “a versão final do conceito de guerra cognitiva estava projetada para ser concluída no fim de 2024”, mas que até então não havia sido integrada à doutrina da OTAN como domínio formal.
O relatório do Cientista-Chefe da OTAN de 2025, analisado pelo National Defense University em janeiro de 2026, reconheceu que “os conflitos contemporâneos são crescentemente centrados no comportamento e o terreno decisivo muitas vezes não é geográfico”. A formulação descreve o ambiente, não uma doutrina operacional.

Três definições, três ênfases diferentes
Parte da confusão em torno do conceito vem do fato de que definições diferentes enfatizam aspectos distintos.
A definição de Johns Hopkins (Bernal et al., 2020) enfatiza o ator externo e o alvo político: é a militarização da opinião pública por entidades externas para influenciar governos ou desestabilizar instituições. Essa leitura conecta guerra cognitiva diretamente a casos como a interferência russa em eleições.
A definição de Harvard (Backes e Swab, Belfer Center, 2021) enfatiza o mecanismo comportamental: é uma estratégia voltada para mudar a forma como uma população-alvo pensa e, por consequência, como ela age. Aqui o foco é no processo cognitivo, não no ator.
A definição do Innovation Hub da OTAN (du Cluzel e Claverie, 2022) enfatiza a tecnologia e o subconsciente: são ataques coordenados às emoções, pensamentos e comportamentos para impactar vontade, moral, tomada de decisão e compreensão situacional. O diferencial, para os autores, é que os ataques cognitivos são desenhados para ativar processos subconscientes, dificultando a percepção consciente da ameaça.
As três definições compartilham o objetivo de alterar comportamento. O que diverge é o mecanismo enfatizado: ação de atores externos, mudança de crenças ou manipulação de processos subconscientes via tecnologia.
Por que o conceito divide especialistas
A análise publicada por Deppe e Schaal na Frontiers in Big Data em 2024 aplicou critérios formais de análise conceitual ao documento da OTAN e identificou problemas metodológicos concretos.
O primeiro problema é o que os autores chamam de “conceptual stretching” ou estiramento conceitual: o conceito de guerra cognitiva, tal como definido, cobre um espectro tão amplo que vai de propaganda tradicional a interfaces neurais diretas. Quando um conceito abrange ao mesmo tempo um cartaz de recrutamento da Primeira Guerra e um implante cerebral experimental, sua capacidade de guiar políticas específicas diminui.
O segundo problema é a sobreposição com conceitos existentes. A OTAN já opera com os conceitos de FIMI (Foreign Information Manipulation and Interference, desenvolvido pela EEAS da União Europeia), ameaças híbridas e guerra de informação. Uma análise comparativa entre os três, publicada nos proceedings do STO em 2024, concluiu que os conceitos são complementares e abordam domínios parcialmente distintos. FIMI concentra-se em comportamentos de atores externos dirigidos a processos democráticos; ameaças híbridas descrevem combinação de instrumentos em zona abaixo do limiar da guerra; guerra cognitiva busca cobrir os efeitos sobre os processos mentais. A fronteira entre eles, contudo, permanece porosa.
O terceiro problema é a escassez de casos empíricos validados. Deppe e Schaal observaram que a maioria das situações frequentemente citadas como exemplos de guerra cognitiva (interferência russa em eleições, campanhas de desinformação chinesas, Doppelganger) se encaixaria adequadamente nos conceitos já estabelecidos de FIMI ou operações de informação. Isso levanta a questão de se o novo conceito adiciona precisão analítica ou apenas um rótulo diferente.

O componente tecnológico: fato e especulação
Uma das dimensões mais citadas da guerra cognitiva, e também a mais propensa a interpretações exageradas, é o componente de neurotecnologia: interfaces neurais, estimulação cerebral, neurofármacos e dispositivos que poderiam, em tese, alterar estados cognitivos diretamente.
O que está documentado: a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency) dos EUA financia programas de pesquisa em interfaces neurais e cognição aumentada para aplicações militares. O programa SCEPTER investiga como aumentar capacidades cognitivas de comandantes via tecnologia. Programas paralelos exploram defesa contra possíveis “neuroarmas”. O pesquisador James Giordano, do Centro de Ética Clínica da Georgetown University, apresentou para cadetes de West Point em conferência pública (disponível online) uma análise do espectro de neurotecnologias com potencial de uso militar.
O que permanece em fase de pesquisa, sem emprego operacional confirmado publicamente: uso de implantes neurais em combate, neuroestimulação como arma em conflitos em curso, manipulação cognitiva direta via tecnologia não informacional.
A distinção importa. Quando a literatura popular sobre guerra cognitiva mistura operações de desinformação documentadas com especulações sobre neurarmas experimentais, cria um panorama que é simultaneamente exagerado em algumas dimensões e subestimado em outras.
O debate no Brasil
O Brasil não é observador passivo do campo. Em 2024, o pesquisador Christiano Cruz Ambros publicou na Revista Brasileira de Estudos de Defesa (RBED) análise do conceito de guerra cognitiva e dos programas de militarização da neurociência nos EUA e na China, identificando implicações para a defesa brasileira.
O Exército Brasileiro possui o Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber), criado em 2010. Em 2025, o Brasil participou como único representante da América Latina do Locked Shields, o maior exercício de defesa cibernética da OTAN, com participação de 41 países coordenada pelo CCDCOE de Tallinn. Em abril de 2026, o Exército aprovou nova Política de Transformação que inclui guerra cibernética entre prioridades até 2031.
A doutrina pública brasileira ainda trata o tema predominantemente sob o vocabulário de defesa cibernética e operações de informação, sem incorporar formalmente o termo “guerra cognitiva” como categoria doutrinária autônoma, conforme documentação disponível publicamente até a data desta publicação.
O que o conceito contribui e quais são seus limites
O valor analítico do conceito de guerra cognitiva está na capacidade de articular algo que os conceitos existentes não capturavam com clareza: que o objetivo final de operações de informação, ciberataques e influência psicológica é sempre a alteração de estados cognitivos humanos, sejam de indivíduos, sejam de coletividades. Reunir esse objetivo comum sob um mesmo conceito tem utilidade para análise estratégica.
O risco está no uso impreciso. Quando “guerra cognitiva” é empregado como sinônimo de qualquer propaganda, desinformação ou operação de influência, perde precisão. Quando é empregado para sugerir que todo dissenso político ou crença popular inconveniente é produto de operação cognitiva adversária, torna-se instrumento de leitura conspiratória da realidade.
A distinção entre análise e atribuição é central. Documentar que atores estatais usam desinformação para influenciar eleições é diferente de afirmar que qualquer cidadão que discorde de uma posição oficial está sob efeito de guerra cognitiva. O primeiro é análise com base em evidência. O segundo é uso retórico do conceito.
O campo continua em formação. O relatório STO de 2025 descreve guerra cognitiva como “desafio estratégico de pesquisa”, não como doutrina operacional estabelecida. Essa distinção entre agenda de pesquisa e capacidade operacional é o ponto mais importante para quem quer usar o conceito com precisão.
O que observar a seguir
Três desenvolvimentos merecem acompanhamento.
A integração formal do domínio cognitivo à doutrina da OTAN, caso ocorra, sinalizará a transição do conceito de agenda de pesquisa para orientação operacional. A evolução do arcabouço regulatório europeu sobre FIMI, com o Digital Services Act como referência, indicará como o lado civil trata a mesma problemática. E o desenvolvimento de programas de neurotecnologia militar em EUA e China, conforme publicações abertas e análises acadêmicas revisadas por pares, permitirá separar o que é capacidade real do que é projeção especulativa.
Fontes e referências
- BERNAL, Alonso et al. “Cognitive Warfare: An Attack on Truth and Will”. Johns Hopkins University / NATO ACT Innovation Hub, 2020. innovationhub-act.org. [Documento primário institucional]
- DU CLUZEL, François; CLAVERIE, Bernard. “The Cognitive Warfare Concept”. NATO ACT Innovation Hub, 2022. innovationhub-act.org. [Documento primário institucional]
- NATO SCIENCE AND TECHNOLOGY ORGANIZATION (STO). “Cognitive Warfare”. STO-OCS-001. Dezembro 2025. sto.nato.int. Acesso em 10 jun. 2026. [Documento primário institucional]
- DEPPE, C.; SCHAAL, G. S. “Cognitive warfare: a conceptual analysis of the NATO ACT cognitive warfare exploratory concept”. Frontiers in Big Data, outubro 2024. DOI: 10.3389/fdata.2024.1452129. [Fonte acadêmica revisada por pares]
- BACKES, Oliver; SWAB, Andrew. “Countering Cognitive Warfare: Awareness and Resilience”. NATO Review, 20 maio 2021. nato.int. [Fonte especializada]
- DEPPE, C. “Disinformation in Cognitive Warfare, Foreign Information Manipulation and Interference, and Hybrid Threats”. Defence Horizon Journal, outubro 2023. DOI: 10.5281/zenodo.10005172. [Fonte especializada]
- IRREGULAR WARFARE CENTER. “Assessing Cognitive Warfare”. irregularwarfare.org. [Análise especializada]
- INSS / NATIONAL DEFENSE UNIVERSITY. “Cognitive Warfare 2026: NATO’s Chief Scientist Report as Sentinel Call for Operational Readiness”. inss.ndu.edu, 6 jan. 2026. [Análise especializada]
- AMBROS, Christiano Cruz. “Guerra Cognitiva e militarização da neurociência: programas de pesquisa em neurotecnologias dos Estados Unidos e da China”. Revista Brasileira de Estudos de Defesa (RBED), v.11, n.1, jan./jun. 2024. DOI: 10.26792/rbed.v11i1.75409. [Fonte acadêmica revisada por pares]
- DEFESA EM FOCO. “Guerra digital: Brasil fortalece capacidades no maior exercício cibernético global” (Locked Shields 2025). defesaemfoco.com.br. [Jornalismo especializado]
- DEFESA TV. “Exército Brasileiro aprova Política de Transformação com foco em guerra cibernética”. defesa.tv.br, abril 2026. [Jornalismo especializado]

