O debate sobre o salário dos militares das Forças Armadas costuma produzir duas imagens aparentemente incompatíveis.
Uma delas apresenta uma carreira protegida pelo Estado, com estabilidade, remuneração na inatividade, assistência médica, adicionais e regras próprias de proteção social. A outra descreve uma profissão submetida à perda de poder de compra, longas jornadas, mobilidade frequente, dedicação exclusiva, riscos e remuneração inferior à de carreiras públicas com exigências semelhantes.
As duas narrativas encontram exemplos capazes de sustentá-las. A diferença aparece na escolha do número, do personagem e do período analisado.
Quem seleciona a remuneração de um oficial-general, um pagamento eventual ou a despesa total com ativos, veteranos e pensionistas constrói um retrato. Quem seleciona o soldo de um terceiro-sargento, a inflação acumulada ou o tempo de formação constrói outro.
Compreender o debate exige colocar esses elementos no mesmo quadro.

O número escolhido define a narrativa
A primeira dificuldade está no uso da palavra “salário”. A estrutura remuneratória militar possui várias parcelas. O soldo é a base mensal vinculada ao posto ou à graduação. A remuneração também pode incluir adicional militar, habilitação, disponibilidade, compensação orgânica, permanência, gratificação de localidade especial e outras parcelas previstas na legislação. Nem todo militar recebe todos esses componentes.
Em janeiro de 2026, por exemplo, o soldo de um terceiro-sargento passou a R$ 4.177. O de um segundo-sargento chegou a R$ 5.209. Um aspirante a oficial recebe soldo de R$ 7.988, um segundo-tenente de R$ 8.179 e um capitão de R$ 9.976. No topo da tabela, o soldo dos postos mais elevados alcança R$ 14.711. Esses valores representam a parcela básica e não o pagamento bruto final de todos os integrantes de cada grupo.
Uma manchete baseada apenas no soldo pode omitir adicionais relevantes. Uma comparação baseada na maior remuneração encontrada pode transformar uma situação excepcional em representação de centenas de milhares de pessoas.
O enquadramento começa antes da conclusão. Ele começa na escolha da coluna da planilha.
A perda de poder de compra do soldo tem base mensurável

Os valores da tabela permaneceram inalterados entre janeiro de 2020 e março de 2025. Em abril de 2025, receberam correção de 4,5%. Outra parcela de 4,5% entrou em vigor em janeiro de 2026. Como os percentuais incidem sucessivamente, a correção acumulada ficou próxima de 9,2%.
No mesmo intervalo, o IPCA foi de 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 5,79% em 2022, 4,62% em 2023 e 4,83% em 2024. A composição desses índices produz inflação acumulada de aproximadamente 33,5%. Com os 4,26% registrados em 2025, o acumulado desde 2020 alcança cerca de 39,2%.
A defasagem da tabela básica, portanto, pode ser demonstrada matematicamente. As correções de 2025 e 2026 não recompuseram a inflação acumulada desde 2020.
Essa constatação precisa de uma ressalva. A remuneração total não ficou necessariamente congelada para todos. A reforma de 2019 elevou progressivamente os percentuais do adicional de habilitação e criou o adicional de compensação por disponibilidade militar. O efeito variou conforme os cursos realizados, o posto, a graduação e a situação individual.
A formulação mais precisa reconhece duas coisas ao mesmo tempo: o soldo perdeu poder de compra e determinados grupos tiveram alterações em outras parcelas remuneratórias.
A formação militar ocupa uma parte relevante da juventude

O oficial combatente formado pela Academia Militar das Agulhas Negras percorre cinco anos de formação. O primeiro ocorre na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas. Os quatro seguintes acontecem na AMAN, em Resende, com formação acadêmica, exercícios, instruções militares e preparação para funções de comando.
Os cursos de formação e graduação de sargentos duram dois anos consecutivos e possuem carga mínima de 2.400 horas. Cada ano pode ocupar até 48 semanas, incluindo instruções, atividades acadêmicas e estágio profissional supervisionado.
A legislação reconhece que os estabelecimentos podem manter alunos em regime de internato, dedicação exclusiva e disponibilidade permanente. Para essas formações, a ausência de filhos ou dependentes e a inexistência de casamento ou união estável podem constituir condições de ingresso e permanência.
“Perder uma juventude normal” não é uma categoria mensurável. Ainda assim, existe um custo de oportunidade evidente. Durante anos em que colegas civis costumam ter maior autonomia sobre moradia, horários, relacionamentos e lazer, o aluno militar vive dentro de uma rotina institucional intensiva, com liberdade individual reduzida.
A formação tampouco termina na declaração como aspirante ou na promoção a terceiro-sargento. Cursos de especialização, aperfeiçoamento e altos estudos acompanham a progressão. A própria estrutura remuneratória reconhece esses níveis por meio do adicional de habilitação, que varia conforme o curso realizado.
Esse investimento produz profissionais qualificados, mas também cria um problema de retenção. A saída de alguém formado durante anos representa perda de efetivo e de recursos públicos empregados na preparação.
Comparações com outras carreiras exigem critérios equivalentes

A percepção de defasagem cresce quando militares observam outras carreiras públicas que exigem graduação, concurso, responsabilidade elevada e disponibilidade para servir ao Estado.
Em abril de 2026, o vencimento básico inicial previsto para analista tributário da Receita Federal era de R$ 12.735,99. Para auditor-fiscal da Receita e auditor-fiscal do Trabalho, o vencimento básico inicial era de R$ 22.921,71. Um capitão das Forças Armadas, após formação e progressão na carreira, possuía soldo de R$ 9.976; um coronel, R$ 12.505.
Os exemplos mostram que determinadas carreiras civis possuem vencimentos básicos superiores. Eles não autorizam concluir que todo servidor civil de nível superior ganha mais que todo militar.
Uma comparação metodologicamente adequada deveria considerar:
- requisitos de ingresso;
- duração e natureza da formação;
- tempo necessário para alcançar cada nível;
- vencimento básico e remuneração total;
- gratificações e bônus;
- jornada efetiva;
- mobilidade;
- riscos;
- estabilidade;
- regras de inatividade;
- descontos obrigatórios;
- restrições ao exercício de outras atividades.
O Exército afirma, em documento publicado em 2025, que a renda per capita anual dos servidores federais ativos supera em mais de duas vezes a dos militares ativos. O mesmo texto classifica a média militar entre as menores das carreiras de Estado. Essa comparação representa a posição institucional da Força e o documento não apresenta, no trecho correspondente, todos os critérios metodológicos necessários para uma verificação independente completa.
O dado merece consideração, mas não deve ser usado como prova autossuficiente.
A família absorve parte dos custos da mobilidade
As movimentações por necessidade do serviço podem levar o militar para diferentes regiões do país ao longo da carreira. O Ministério da Defesa reconhece que essas transferências afetam o projeto de vida do cônjuge e dos filhos e podem colocar famílias em localidades com infraestrutura limitada.
A consequência profissional para o cônjuge é particularmente relevante. Cada mudança pode interromper vínculos, reduzir oportunidades, exigir nova rede de contatos e dificultar a construção de uma carreira contínua.
Um estudo publicado na Revista Brasileira de Estudos de População analisou dados do Censo de 2010 e identificou que esposas de militares participavam menos do mercado de trabalho formal do que cônjuges de outros servidores públicos e trabalhadores do setor privado, mesmo após controles estatísticos. O recorte é antigo e não deve ser apresentado como retrato exato de 2026, mas oferece evidência nacional de que a mobilidade pode deslocar custos econômicos para a família.
Há também períodos de afastamento provocados por cursos, missões, operações, exercícios e serviços. A família permanece na cidade de origem ou reorganiza sua rotina sem a presença constante do militar.
Esse componente raramente aparece nas comparações salariais. A renda do domicílio pode depender da remuneração de uma única pessoa justamente porque a carreira dificulta a continuidade profissional da outra.
Disponibilidade, risco e restrições alteram o valor da carreira
A legislação reconhece a disponibilidade permanente e a dedicação exclusiva como características remuneradas por adicional próprio. O Ministério da Defesa descreve o militar como sujeito à disponibilidade contínua, à possibilidade de interrupção de férias e a jornadas que, em situações específicas, podem abranger todo o período de uma semana. Também informa que o militar da ativa é impedido de exercer outra profissão.
Essa restrição reduz a possibilidade de complementar renda, construir atividade paralela ou preparar uma transição gradual para outra profissão. Ela também torna a remuneração estatal ainda mais central para a vida financeira da família.
Escalas de serviço, guarda, prontidão, operações e exercícios no terreno podem ampliar significativamente a jornada. A intensidade varia conforme a organização militar e a especialidade. Por isso, seria impreciso apresentar toda rotina militar como uma escala permanentemente excepcional. Também seria incompleto ignorar os períodos em que serviços e adestramentos ocupam noites, fins de semana e dias consecutivos.
A profissão possui riscos próprios. O Ministério da Defesa reconhece exposição a lesões, desgaste físico e mental, ambientes insalubres, doenças, condições extremas e preparação permanente para o emprego em guerra. Certas atividades especiais, como voo, salto de paraquedas, mergulho, serviço em submarino e trabalho com materiais radioativos, possuem compensação orgânica específica.
Acidentes e mortes em instruções e atividades militares são registrados individualmente, mas a pesquisa para esta matéria não encontrou uma série pública nacional consolidada que permita afirmar a frequência ou comparar o risco entre especialidades. A ausência dessa base impede transformar casos conhecidos em taxa geral.
As reformas combinaram compensações e novas obrigações
O argumento de que os militares preservaram todos os benefícios ao longo do tempo não corresponde à evolução normativa.
A Medida Provisória nº 2.215-10, de 2001, extinguiu o adicional de tempo de serviço para os períodos posteriores a dezembro de 2000, preservando os percentuais já adquiridos. A mesma norma manteve apenas em caráter de transição direitos vinculados à licença especial e a outros benefícios adquiridos até aquela data.
Em 2019, outra reestruturação elevou de 30 para 35 anos o tempo necessário para a transferência à reserva remunerada a pedido, com regras de transição. A contribuição para pensão militar passou de 7,5% para 9,5% em 2020 e para 10,5% em 2021.
A reforma também criou o adicional de compensação por disponibilidade militar e elevou progressivamente o adicional de habilitação.
A narrativa de privilégio tende a enfatizar os adicionais e a proteção na inatividade. A narrativa de defasagem concentra-se nos descontos, no aumento do tempo de serviço, na perda de vantagens históricas e na inflação. Os dois recortes descrevem partes reais da reforma.
A evasão transforma o debate salarial em problema de pessoal
A insatisfação deixa de ser apenas questão individual quando profissionais qualificados abandonam a carreira em quantidade suficiente para afetar a reposição e a experiência acumulada.
Levantamento da CNN, produzido com dados fornecidos pelas Forças, apontou 5.247 saídas na Marinha e no Exército entre 2015 e 2024. Segundo a reportagem, as perdas aumentaram nos anos mais recentes em determinados segmentos. A base não inclui uma série completa da Aeronáutica nem apresenta a proporção dos desligamentos em relação ao efetivo total, o que impede classificar o fenômeno nacional com uma taxa única.
O próprio Exército registra preocupação com o assunto. Em documento de 2025, a Secretaria de Economia e Finanças descreve como significativa a saída de militares por meio de concursos para carreiras civis e associa o fenômeno à falta de incentivos salariais e à busca de maior bem-estar familiar. O texto alerta para perda de pessoal qualificado, redução da capacidade operacional e desperdício do investimento público realizado na formação.
Essa manifestação possui caráter institucional e apresenta uma defesa do sistema militar. Ainda assim, sua existência mostra que retenção e remuneração já são tratadas internamente como temas estratégicos.
A evasão tende a ser mais prejudicial em áreas nas quais o profissional possui formação rara, experiência técnica, certificações ou cursos custosos. Substituir um especialista requer concurso, formação, adaptação e anos de prática.
Privilégio e defasagem dependem do modelo de comparação
Há vantagens concretas na carreira militar. Estabilidade, proteção social, remuneração na inatividade, assistência e adicionais específicos possuem valor econômico e devem fazer parte do debate.
Há também custos concretos. O soldo perdeu poder de compra ao longo dos anos recentes. A formação ocupa um período extenso, a carreira restringe atividades paralelas, impõe disponibilidade, exige mobilidade, afeta projetos familiares e expõe determinados profissionais a riscos significativos.
Minha leitura é que o debate público costuma contar apenas metade da história. Uma corrente soma benefícios e omite sacrifícios. A outra soma sacrifícios e reduz a importância das proteções recebidas.
O resultado são duas narrativas capazes de mobilizar seus públicos, mas insuficientes para orientar uma política de pessoal.
Avaliar a remuneração militar exige decidir qual efetivo o país pretende formar, manter e empregar. Uma tabela salarial pode parecer adequada quando observada isoladamente e tornar-se pouco competitiva diante das qualificações exigidas, das restrições impostas e das alternativas disponíveis no setor público e privado.
A evasão oferece um indicador concreto. Profissionais que investiram anos em formação e construíram uma carreira estável estão aceitando os custos da saída para buscar outras oportunidades. Ainda faltam dados públicos mais completos para medir a dimensão do fenômeno nas três Forças, identificar os grupos mais afetados e separar causas salariais de questões familiares, profissionais e organizacionais.
Sem essa transparência, “privilégio” e “defasagem” continuarão funcionando como rótulos. Com dados comparáveis, o debate pode avançar para uma pergunta mais útil: a remuneração e as condições oferecidas são suficientes para atrair e reter os profissionais de que as Forças Armadas necessitam?
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Observe com mais atenção.

