sábado, 08 de agosto de 2026

Quando o ativo vira passivo: a crise Michelle–Flávio como caso de comunicação

Michelle Bolsonaro foi construída como o ativo que reduzia a rejeição do PL entre mulheres. A crise com Flávio e a saída do PL Mulher mostram o que acontece quando um símbolo age por conta própria.
6 min de leitura
Retrato de Michelle Bolsonaro em evento oficial, usado como capa do artigo sobre a crise com Flávio Bolsonaro e a saída da presidência do PL Mulher.
Michelle Bolsonaro, ex-presidente do PL Mulher, em evento oficial. Foto: Palácio do Planalto / via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).

Compartilhar

Há uma regra não escrita que a família Bolsonaro seguiu por anos: as disputas internas se resolvem longe das câmeras. Em 24 de junho de 2026, essa regra foi quebrada por dentro. Num vídeo de cerca de 26 minutos, Michelle Bolsonaro relatou publicamente ter se sentido humilhada e desrespeitada pelo enteado, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. O que se seguiu, em pouco mais de uma semana, é um caso quase laboratorial de como o capital simbólico funciona na política, e do que acontece quando ele escapa ao controle de quem o organizou.

O ativo que o PL construiu

Para entender o tamanho do episódio, é preciso ver o que Michelle representava para o partido. Desde que assumiu a presidência do PL Mulher, em março de 2023, ela recebeu o crédito de dar corpo a um movimento que, segundo ela própria, existia só no papel, instalando diretórios estaduais e municipais pelo país. O feito mais valioso, do ponto de vista eleitoral, foi outro: ajudar a reduzir a rejeição do eleitorado feminino aos homens do PL e à família Bolsonaro. Esse público é decisivo para 2026 e é justamente onde Flávio enfrenta mais resistência nas pesquisas. Em termos de comunicação, Michelle era o ativo que suavizava uma imagem, o rosto que traduzia o projeto para um segmento que o rejeitava.

A semana em que o ativo falou sozinho

O estopim foi concreto e prosaico: uma vaga ao Senado no Ceará. Michelle defendia a candidatura de Priscila Costa, vice do PL Mulher; a direção do partido, costurando uma aliança regional com Ciro Gomes, hoje no PSDB, acomodou a vaga para outro nome. Preterida, Michelle foi às redes. Relatou que Flávio teria sido ríspido e teria dito que ela “chegou ontem e não entende de política”, o que classificou como humilhação.

A reação encadeou-se rápido. Na madrugada seguinte, Flávio pediu desculpas, negou qualquer ofensa e chamou as diferenças de “processo natural” da política. No dia 25, Michelle recuou, afirmando não ter raiva de ninguém e que não havia “briga nem competição”. Cinco dias depois, em 30 de junho, comunicou ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, a saída da presidência do PL Mulher, alegando dedicação ao marido, em prisão domiciliar e com problemas de saúde, e à filha. Se a decisão foi dela ou uma determinação de Jair Bolsonaro, as fontes divergem, e essa dúvida é parte do enredo, não uma nota de rodapé.

O fogo amigo

O dado mais revelador do caso não está no conflito em si, mas em quem atacou. Um levantamento da consultoria Bites, divulgado pela imprensa, apontou que, a partir de 27 de junho, cerca de um terço de 300 mil menções a Michelle continham críticas, e que parte expressiva do ataque partiu do próprio campo bolsonarista, associando-a de forma irônica a figuras como Nikolas Ferreira, Tarcísio de Freitas e Rodrigo Constantino, com apelidos como “Michelle Firmo”. O ativo que reduzia a rejeição virou alvo da própria base. Esse é o ponto que interessa à análise: o dano maior não veio do adversário, veio de dentro.

A esquerda de camarote

Do outro lado, a reação mais eficaz foi quase não reagir. Militantes do PT fizeram circular um card satírico apresentando Michelle como “funcionária do mês” do partido, agradecendo sua “contribuição” ao projeto adversário. A ironia fez o trabalho que um ataque frontal não faria: em vez de transformá-la em vítima de oposição, o deboche a manteve no papel de quem, sem querer, prejudica o próprio lado. Enquanto isso, a direção petista evitou posição oficial e concentrou o discurso em outro flanco, associando Flávio ao caso Banco Master. É uma economia de esforço reveladora: quando o estrago já está sendo feito pelo campo adversário, o gesto mais rentável é não interromper.

O mecanismo

O que esse episódio ensina vai além de um desentendimento de família. Todo símbolo político é construído para carregar um significado, e é essa a fonte de sua força e de sua fragilidade. Enquanto o símbolo permanece alinhado ao roteiro, ele soma: agrega públicos, suaviza arestas, empresta afeto a um projeto. No instante em que age por conta própria e contradiz o roteiro, o mesmo significado acumulado se inverte, porque o público havia sido ensinado a levá-lo a sério. Não é possível pedir que um rosto tenha peso quando convém e seja irrelevante quando incomoda. Um capital simbólico grande o bastante para reduzir rejeições é grande o bastante para, ao se voltar, ampliá-las.

Há aqui uma assimetria que vale para qualquer campo político, de qualquer cor. Construir um símbolo leva anos e exige coordenação; desfazer a vantagem que ele traz leva dias e exige apenas que ele fale fora do script. E, quando isso acontece, o adversário raramente precisa fazer força: basta segurar o espelho e deixar que a cena se conte sozinha. A pergunta que o caso deixa, mais útil que qualquer torcida, é quanto do poder de uma figura pública é dela e quanto é do enredo que outros escreveram para ela, um enredo que se sustenta só enquanto ela concorda em segui-lo.

Observe com mais atenção.

Fontes: CNN Brasil, O Globo (via consultoria Bites), Gazeta do Povo, ND Mais, ICL Notícias e Terra Brasil Notícias (cobertura de 24 de junho a 3 de julho de 2026).

Foto de Antonio Miranda

Sobre o Autor

Antonio Miranda é fundador e editor da SUASOR. Pesquisador da influência em sentido amplo, dedica-se há mais de 10 anos ao estudo dos mecanismos que moldam a percepção pública: como narrativas se constroem, como símbolos persuadem, como mensagens se propagam e se sedimentam em sociedades. Seu interesse atravessa a história da propaganda, a psicologia social, a comunicação estratégica e o que hoje se discute sob o nome de operações de informação. Desenvolve pesquisa contínua em fontes acadêmicas, documentais e jornalísticas. Na SUASOR, escreve com a convicção de que a alfabetização em influência é uma necessidade pública contemporânea. O projeto procura ensinar o leitor a perceber as estruturas invisíveis que sustentam mensagens, marcas, discursos e tendências.

Compartilhar

Mão segurando smartphone com app de apostas em ambiente doméstico noturno, luz azulada de tela.
Quase 700 mil brasileiros já se autoexcluíram de apostas online. O que a psicologia do reforço intermitente explica sobre por que é tão difícil parar.
5 min de leitura

·

19 jun 2026
Copos Stanley Quencher de várias cores expostos lado a lado, mostrando o produto como item funcional e acessório de estilo.
Entenda como o copo Stanley combinou utilidade, redes sociais, cores, escassez e pertencimento para se transformar em símbolo de status.
6 min de leitura

·

13 jun 2026