No minuto 78 do jogo contra a Noruega, o Brasil ainda era um time em construção sob um treinador de currículo raro, com jogadores de elite europeia e uma chance viva de avançar. Doze minutos depois, era o pior time da história, com o pior técnico, o pior elenco e o pior planejamento já vistos. Entre um julgamento e outro, o que mudou no futebol brasileiro foi exatamente nada. Mudou o placar.
O que mudou entre o minuto 78 e o 91
Vale reconstituir com precisão. Aos 79 minutos, Haaland cabeceou e abriu o marcador. Aos 90, chutou rasteiro e fechou o caixão. Neymar descontou de pênalti nos acréscimos, e acabou: 2 a 1, eliminação nas oitavas, a pior campanha desde 1990. Antes disso, ainda no primeiro tempo, Bruno Guimarães havia desperdiçado um pênalti, o primeiro perdido pelo Brasil em Copas do Mundo desde 1986.
Repare no que essa cronologia faz com a avaliação coletiva. Se a bola de Bruno Guimarães entra, o mesmo jogo, os mesmos jogadores e o mesmo técnico produzem uma narrativa oposta: time corajoso, treinador que acertou, geração promissora. A qualidade da cobrança não mudaria em nada; mudaria apenas o destino da bola. Mas nossa avaliação do time inteiro, do técnico e até do futuro da Seleção teria sido outra. Esse é o experimento que o futebol oferece de graça, e que a política raramente permite: uma variável isolada, o resultado, e todo o resto constante.
A torcida é feita de pronomes
A psicologia social tem nomes precisos para o que aconteceu depois do apito. Em 1976, Robert Cialdini e colegas publicaram um estudo que virou clássico: observaram que estudantes universitários vestiam roupas do próprio time com muito mais frequência depois de vitórias, e escondiam esses mesmos símbolos depois de derrotas. Chamaram o primeiro comportamento de basking in reflected glory, banhar-se na glória alheia. Uma replicação feita quarenta anos depois confirmou o achado: os participantes tinham mais que o dobro de chance de usar roupa do time após uma vitória, e 55% menos chance após uma derrota.
O detalhe mais revelador do estudo original é gramatical. Ao descrever uma vitória, as pessoas dizem “nós ganhamos”. Ao descrever uma derrota, dizem “eles perderam”. O pronome muda. É o mecanismo espelhado, cutting off reflected failure, cortar a associação com o fracasso. A raiva que tomou conta das redes na noite de 5 de julho não é apenas frustração esportiva; é um movimento de defesa da autoimagem. Enquanto o time vence, ele é parte de quem somos. Quando perde, precisa virar outra coisa, algo de que possamos nos distanciar depressa, e a maneira mais rápida de se distanciar de um símbolo é atacá-lo.
O passado é reescrito pelo resultado
Há um segundo mecanismo, e ele explica por que a mudança de opinião parece, para quem a vive, perfeitamente racional. O viés retrospectivo faz com que, depois de conhecer o desfecho, o cérebro reorganize a memória do que veio antes como se aquilo fosse previsível o tempo todo. Frases como “dava para ver que esse time não tinha entrosamento” só aparecem depois do apito final, e quem as diz acredita sinceramente que já pensava assim antes. O passado é reescrito na cor do resultado.
Junto vem o viés de resultado, a tendência de julgar a qualidade de uma decisão pelo que ela produziu, e não pelo que era razoável esperar quando foi tomada. Uma escalação é chamada de acerto ou de erro conforme o placar, ainda que a informação disponível ao treinador fosse exatamente a mesma nos dois cenários. É por isso que a mesma aposta tática vira genialidade quando dá certo e teimosia quando dá errado.
A mesma régua governa a política
Aqui o assunto deixa o campo. Os mesmos mecanismos já foram observados fora do esporte, inclusive no comportamento do eleitorado após eleições, com pesquisadores documentando movimentos idênticos de aproximação e distanciamento conforme o resultado das urnas. A avaliação de governos segue lógica semelhante. Aprovações sobem e descem acompanhando o preço da comida, o desemprego e a sensação de segurança, isto é, o placar visível, e não a qualidade técnica das decisões que produziram esses números, muitas vezes tomadas anos antes e por outras pessoas. Uma decisão econômica acertada que só rende frutos daqui a três anos será julgada, hoje, pelo desconforto que causa. Uma decisão ruim que dá sorte no curto prazo será celebrada.
Reconhecer isso não é desprezo pelo público. É reconhecer um traço geral do julgamento humano: avaliar processos é caro, avaliar resultados é barato, e o cérebro escolhe o barato. O torcedor não é ingênuo por trocar o hexa pela fúria em dez minutos, do mesmo modo que o eleitor não é ingênuo por atrelar sua avaliação de um governo ao preço do arroz. Ambos estão usando o atalho que a mente oferece.
A utilidade de perceber o mecanismo aparece na pergunta que ele permite fazer, no futebol e fora dele: se o pênalti tivesse entrado, eu estaria dizendo a mesma coisa que estou dizendo agora? Quando a resposta é não, o que mudou provavelmente não foi o objeto do julgamento. Foi o placar.
Observe com mais atenção.
Fontes e referências:
- CNN Brasil e Forbes Brasil (dados da partida Brasil x Noruega, 5 de julho de 2026);
- Cialdini, R. B. et al., “Basking in Reflected Glory: Three (Football) Field Studies” (1976) e sua replicação de 2016;
- Literatura sobre viés retrospectivo e viés de resultado; e
- DuBosar et al. (2023), sobre BIRGing e CORFing aplicados a eleições.

