quarta-feira, 17 de junho de 2026

Por que tragédias viralizam: o que a cobertura de uma morte em Limeira revela sobre a economia da atenção

Em poucos dias, a morte de uma jovem em São Paulo virou milhões de visualizações. O que sustenta esse padrão são três mecanismos que funcionam ao mesmo tempo: o cérebro humano, o jornalismo e o algoritmo.
5 min de leitura
Mão segurando smartphone em ambiente doméstico noturno, com tela exibindo feed de notícias em manchetes vermelhas e pretas, ilustrando o consumo cotidiano de notícias trágicas.
A engrenagem da atenção não acontece em uma redação. Acontece todas as noites, em milhões de telas, na palma da mão. Ilustração editorial gerada por inteligência artificial.

Compartilhar

Na semana passada, uma jovem de 21 anos morreu durante um salto de rope jump em Limeira. Em pouco tempo, o caso já estava em portais, programas de TV, canais no YouTube e perfis de redes sociais. Cada veículo extraía um ângulo diferente. Muitos desses novos ângulos acrescentavam pouco às informações já conhecidas. Sua principal função parecia ser prolongar a permanência do assunto diante do público.

Esse padrão se repete em quase toda morte trágica que chega ao noticiário. Sustentam essa repetição três fatores que operam ao mesmo tempo: como o cérebro humano processa informação ameaçadora, o que o jornalismo aprendeu a identificar como notícia e como as plataformas digitais amplificam o que retém atenção.

Informar é uma coisa. Explorar é outra.

Cobrir uma morte de interesse público é função legítima do jornalismo. Esclarecer responsabilidades, ouvir envolvidos, acompanhar investigação e alertar sobre riscos são tarefas necessárias.

A linha começa a ficar tênue depois que as informações essenciais já foram publicadas. A entrevista com quem prestou socorro, o frame congelado do vídeo, o relato de um familiar, a declaração de uma testemunha que repete o que outras já disseram. Cada fragmento vira nova publicação, com frequência sem informação adicional, mas com fôlego para atrair mais cliques.

A diferença entre informar e prolongar exposição é estreita, mas existe.

Por que tragédias atraem tanta atenção

Existe uma explicação psicológica documentada para esse comportamento. Chama-se viés de negatividade.

Em uma ampla revisão publicada em 2001 no Review of General Psychology, Roy Baumeister e seus colegas reuniram evidências de diferentes áreas da psicologia mostrando que acontecimentos, emoções e informações negativas tendem a produzir efeitos mais fortes e duradouros do que experiências positivas comparáveis.

Uma das explicações propostas é evolutiva: perceber ameaças rapidamente pode ter oferecido vantagens de sobrevivência, tornando informações negativas especialmente capazes de mobilizar a atenção.

Em muitos casos, o interesse por uma notícia trágica nasce de uma mistura de preocupação, medo e tentativa de entender. Ao ler sobre um acidente, o leitor também responde a perguntas que dizem respeito a ele: havia risco evidente? Poderia acontecer comigo? Era possível evitar? A tragédia rompe a normalidade e por isso prende.

O que torna um fato notícia

O jornalismo conhece esse poder há décadas e construiu um vocabulário para descrevê-lo. Em 1965, os pesquisadores noruegueses Johan Galtung e Mari Ruge publicaram um trabalho sobre os critérios que tornam um fato noticioso. Em 2017, os britânicos Tony Harcup e Deirdre O’Neill atualizaram a lista para a era digital.

Entre esses critérios estão morte, surpresa, vítima jovem, identificação social, elemento visual chocante, conflito e proximidade cultural com a audiência. Quanto mais critérios um fato preenche, maior seu potencial de repercussão. O caso de Limeira preenche praticamente todos, e um editor experiente reconhece isso antes mesmo da pauta chegar à reunião.

Esses critérios funcionam tanto para acompanhar uma notícia legítima quanto para alongar artificialmente uma cobertura. O critério em si não decide o uso.

A atenção é um produto disputado pela mídia

No livro The Attention Merchants, publicado em 2016, o jurista americano Tim Wu descreve como diferentes setores construíram modelos de negócio baseados em capturar a atenção do público e revendê-la a anunciantes. A atenção, segundo essa leitura, é o recurso escasso da era contemporânea, disputado por plataformas, veículos e criadores.

Os sistemas de recomendação aprendem com os sinais deixados pelo público: cliques, comentários, compartilhamentos, tempo de permanência e visualizações. Conteúdos capazes de provocar reações intensas costumam gerar muitos desses sinais. O algoritmo não precisa compreender a tragédia para reconhecer que aquela publicação mantém as pessoas diante da tela.

Veículos e criadores observam as métricas, percebem o que está funcionando e produzem mais. A oferta aumenta porque há demanda. A demanda aumenta porque há oferta. O ciclo se sustenta sozinho.

Não acredito que exista uma sala de reunião em que alguém decida friamente explorar cada tragédia. O mecanismo é menos dramático e por isso mais difícil de combater. Está incorporado a metas de audiência, a modelos de negócio, a ferramentas de recomendação e ao próprio hábito de consumo do público.

A tragédia perde audiência, mas não desaparece

Durante alguns dias, uma vítima ocupa manchetes. Depois, outro acontecimento toma seu lugar, as métricas caem e os portais mudam de pauta. Essa dinâmica mostra que, para o sistema de atenção, a tragédia também possui um ciclo de rendimento editorial.

Reconhecer o mecanismo não interrompe esse ciclo, mas ajuda a fazer uma distinção necessária: a publicação à frente do meu olho acrescenta uma informação de interesse público, ou apenas encontrou outro detalhe capaz de prolongar minha atenção?

A resposta separa o acompanhamento jornalístico da exploração emocional.

Fontes e referências

  1. BAUMEISTER, R. F.; BRATSLAVSKY, E.; FINKENAUER, C.; VOHS, K. D. “Bad Is Stronger Than Good”. Review of General Psychology, 5(4), 2001, pp. 323-370. [Fonte acadêmica]
  2. GALTUNG, J.; RUGE, M. H. “The Structure of Foreign News”. Journal of Peace Research, 2(1), 1965, pp. 64-91. [Fonte acadêmica]
  3. HARCUP, T.; O’NEILL, D. “What is News? News values revisited (again)”. Journalism Studies, 18(12), 2017, pp. 1470-1488. [Fonte acadêmica]
  4. WU, Tim. The Attention Merchants: The Epic Scramble to Get Inside Our Heads. New York: Knopf, 2016. ISBN: 978-0385352017. [Livro de referência]
Foto de Antonio Miranda

Sobre o Autor

Antonio Miranda é fundador e editor da SUASOR. Pesquisador da influência em sentido amplo, dedica-se há mais de 10 anos ao estudo dos mecanismos que moldam a percepção pública: como narrativas se constroem, como símbolos persuadem, como mensagens se propagam e se sedimentam em sociedades. Seu interesse atravessa a história da propaganda, a psicologia social, a comunicação estratégica e o que hoje se discute sob o nome de operações de informação. Desenvolve pesquisa contínua em fontes acadêmicas, documentais e jornalísticas. Na SUASOR, escreve com a convicção de que a alfabetização em influência é uma necessidade pública contemporânea. O projeto procura ensinar o leitor a perceber as estruturas invisíveis que sustentam mensagens, marcas, discursos e tendências.

Compartilhar

Jovem adulto em rua urbana contemporânea consumindo conteúdo cultural pelo smartphone, com cartazes em diferentes idiomas ao fundo, ilustrando a circulação cultural cotidiana que sustenta o soft power.
Soft power é a capacidade de obter resultados por atração. Entenda o conceito de Joseph Nye, suas três fontes e o que muda com a noção de "sharp power".
9 min de leitura

·

13 jun 2026
Corredor urbano com tênis esportivos em movimento na calçada da cidade, representando o universo de ação que "Just Do It" convocou desde 1988.
"Just Do It" nasceu na véspera de uma reunião, inspirado nas últimas palavras de um condenado à morte. O que o caso revela sobre como slogans funcionam.
7 min de leitura

·

11 jun 2026