Na semana passada, uma jovem de 21 anos morreu durante um salto de rope jump em Limeira. Em pouco tempo, o caso já estava em portais, programas de TV, canais no YouTube e perfis de redes sociais. Cada veículo extraía um ângulo diferente. Muitos desses novos ângulos acrescentavam pouco às informações já conhecidas. Sua principal função parecia ser prolongar a permanência do assunto diante do público.
Esse padrão se repete em quase toda morte trágica que chega ao noticiário. Sustentam essa repetição três fatores que operam ao mesmo tempo: como o cérebro humano processa informação ameaçadora, o que o jornalismo aprendeu a identificar como notícia e como as plataformas digitais amplificam o que retém atenção.
Informar é uma coisa. Explorar é outra.
Cobrir uma morte de interesse público é função legítima do jornalismo. Esclarecer responsabilidades, ouvir envolvidos, acompanhar investigação e alertar sobre riscos são tarefas necessárias.
A linha começa a ficar tênue depois que as informações essenciais já foram publicadas. A entrevista com quem prestou socorro, o frame congelado do vídeo, o relato de um familiar, a declaração de uma testemunha que repete o que outras já disseram. Cada fragmento vira nova publicação, com frequência sem informação adicional, mas com fôlego para atrair mais cliques.
A diferença entre informar e prolongar exposição é estreita, mas existe.
Por que tragédias atraem tanta atenção
Existe uma explicação psicológica documentada para esse comportamento. Chama-se viés de negatividade.
Em uma ampla revisão publicada em 2001 no Review of General Psychology, Roy Baumeister e seus colegas reuniram evidências de diferentes áreas da psicologia mostrando que acontecimentos, emoções e informações negativas tendem a produzir efeitos mais fortes e duradouros do que experiências positivas comparáveis.
Uma das explicações propostas é evolutiva: perceber ameaças rapidamente pode ter oferecido vantagens de sobrevivência, tornando informações negativas especialmente capazes de mobilizar a atenção.
Em muitos casos, o interesse por uma notícia trágica nasce de uma mistura de preocupação, medo e tentativa de entender. Ao ler sobre um acidente, o leitor também responde a perguntas que dizem respeito a ele: havia risco evidente? Poderia acontecer comigo? Era possível evitar? A tragédia rompe a normalidade e por isso prende.
O que torna um fato notícia
O jornalismo conhece esse poder há décadas e construiu um vocabulário para descrevê-lo. Em 1965, os pesquisadores noruegueses Johan Galtung e Mari Ruge publicaram um trabalho sobre os critérios que tornam um fato noticioso. Em 2017, os britânicos Tony Harcup e Deirdre O’Neill atualizaram a lista para a era digital.
Entre esses critérios estão morte, surpresa, vítima jovem, identificação social, elemento visual chocante, conflito e proximidade cultural com a audiência. Quanto mais critérios um fato preenche, maior seu potencial de repercussão. O caso de Limeira preenche praticamente todos, e um editor experiente reconhece isso antes mesmo da pauta chegar à reunião.
Esses critérios funcionam tanto para acompanhar uma notícia legítima quanto para alongar artificialmente uma cobertura. O critério em si não decide o uso.
A atenção é um produto disputado pela mídia
No livro The Attention Merchants, publicado em 2016, o jurista americano Tim Wu descreve como diferentes setores construíram modelos de negócio baseados em capturar a atenção do público e revendê-la a anunciantes. A atenção, segundo essa leitura, é o recurso escasso da era contemporânea, disputado por plataformas, veículos e criadores.
Os sistemas de recomendação aprendem com os sinais deixados pelo público: cliques, comentários, compartilhamentos, tempo de permanência e visualizações. Conteúdos capazes de provocar reações intensas costumam gerar muitos desses sinais. O algoritmo não precisa compreender a tragédia para reconhecer que aquela publicação mantém as pessoas diante da tela.
Veículos e criadores observam as métricas, percebem o que está funcionando e produzem mais. A oferta aumenta porque há demanda. A demanda aumenta porque há oferta. O ciclo se sustenta sozinho.
Não acredito que exista uma sala de reunião em que alguém decida friamente explorar cada tragédia. O mecanismo é menos dramático e por isso mais difícil de combater. Está incorporado a metas de audiência, a modelos de negócio, a ferramentas de recomendação e ao próprio hábito de consumo do público.
A tragédia perde audiência, mas não desaparece
Durante alguns dias, uma vítima ocupa manchetes. Depois, outro acontecimento toma seu lugar, as métricas caem e os portais mudam de pauta. Essa dinâmica mostra que, para o sistema de atenção, a tragédia também possui um ciclo de rendimento editorial.
Reconhecer o mecanismo não interrompe esse ciclo, mas ajuda a fazer uma distinção necessária: a publicação à frente do meu olho acrescenta uma informação de interesse público, ou apenas encontrou outro detalhe capaz de prolongar minha atenção?
A resposta separa o acompanhamento jornalístico da exploração emocional.
Fontes e referências
- BAUMEISTER, R. F.; BRATSLAVSKY, E.; FINKENAUER, C.; VOHS, K. D. “Bad Is Stronger Than Good”. Review of General Psychology, 5(4), 2001, pp. 323-370. [Fonte acadêmica]
- GALTUNG, J.; RUGE, M. H. “The Structure of Foreign News”. Journal of Peace Research, 2(1), 1965, pp. 64-91. [Fonte acadêmica]
- HARCUP, T.; O’NEILL, D. “What is News? News values revisited (again)”. Journalism Studies, 18(12), 2017, pp. 1470-1488. [Fonte acadêmica]
- WU, Tim. The Attention Merchants: The Epic Scramble to Get Inside Our Heads. New York: Knopf, 2016. ISBN: 978-0385352017. [Livro de referência]

