Em abril de 2026, uma pesquisa Datafolha mostrou Lula com 45% e Flávio Bolsonaro com 46% em um cenário de segundo turno. Empate técnico, dentro da margem de erro de dois pontos. Em maio, novo levantamento mostrou Lula com 38% e Flávio com 40% em primeiro turno. Ainda empate.
Esses números chegaram aos eleitores brasileiros antes de qualquer voto ser computado. E começaram a fazer parte da equação política antes mesmo que a campanha oficial começasse.
A pesquisa eleitoral, em tese, é um instrumento de medição. Na prática, ela ocupa um lugar mais complicado. Mede o voto e, em alguma medida, contribui para moldá-lo. Esse efeito não é mistério da política contemporânea. A literatura acadêmica o descreve há décadas, com quatro mecanismos bem definidos.
Efeito bandwagon: o eleitor que segue quem está à frente
Bandwagon é o nome dado à tendência de eleitores aderirem a quem aparece como vencedor nas pesquisas. A expressão vem da política americana do século XIX, quando candidatos puxavam carros com bandas musicais durante campanhas, e quem queria se associar à vitória “subia no carro”.
O mecanismo subjacente é estudado em psicologia social desde os anos 1950, quando Solomon Asch publicou os experimentos clássicos sobre conformidade. Pessoas tendem a alinhar seus julgamentos àqueles da maioria percebida, mesmo quando essa maioria está objetivamente errada. Em contexto eleitoral, esse alinhamento aparece como adesão ao candidato que as pesquisas apontam como o mais provável vencedor.
Em estudo influente publicado em 1991 no Journal of Politics, os pesquisadores Ian McAllister e Donley Studlar analisaram eleições britânicas entre 1979 e 1987 e encontraram efeito bandwagon mensurável, embora moderado. O eleitor com baixo engajamento político é mais suscetível. O eleitor com posição consolidada, menos.
Efeito underdog: o eleitor que se mobiliza pelo perdedor
O movimento contrário também existe, com menor frequência. Algumas vezes, eleitores se mobilizam para apoiar quem aparece atrás, por simpatia com a desvantagem ou por convicção de que a pesquisa “está errada”.
Estudos sugerem que o efeito underdog é mais comum em eleições de baixa intensidade emocional ou em populações com forte identidade contra-majoritária. Em eleições polarizadas, o bandwagon costuma prevalecer.
Voto útil: o eleitor que reorganiza sua escolha
O terceiro mecanismo é o mais visível no Brasil. Voto útil, ou voto estratégico, é a reorganização da escolha do eleitor baseada na viabilidade percebida dos candidatos. Se a pesquisa mostra que seu candidato preferido tem pouca chance, o eleitor pode optar por um segundo candidato com mais chance de vencer, sobretudo quando a alternativa principal é vista como inaceitável.
O voto útil é particularmente forte em sistemas com segundo turno, como o brasileiro. Em 2002, parte significativa dos eleitores de Ciro Gomes e Anthony Garotinho migrou para Lula no primeiro turno, à medida que as pesquisas mostravam Lula como o adversário mais viável de José Serra. Em 2018, o mesmo padrão favoreceu Bolsonaro no campo conservador.
Sem pesquisa pública, o voto útil seria menos eficiente. O eleitor precisaria adivinhar quem está na frente.
Espiral do silêncio: o eleitor que se cala
O quarto mecanismo foi formulado em 1974 pela cientista política alemã Elisabeth Noelle-Neumann, em artigo no Journal of Communication. A espiral do silêncio descreve o comportamento de pessoas que silenciam opiniões que percebem como minoritárias por medo de isolamento social.
Aplicada às pesquisas, a espiral se torna autoreforçadora. Quando um candidato é apresentado como minoritário, seus apoiadores hesitam em expressar preferência. Esse silêncio amplia a percepção de que são minoria, o que reforça o silêncio. Pesquisadores debatem em que medida esse fenômeno explica o que ficou conhecido como “voto envergonhado”: eleitores que dizem ainda estar indecisos em pesquisas, mas que já decidiram votar em um candidato pouco aceito no seu círculo.
Esse padrão tem sido sugerido como uma das explicações para a subestimativa sistemática da direita em pesquisas brasileiras recentes.
O que aconteceu em 2018 e 2022
Em 2018, no segundo turno, as pesquisas acertaram. Datafolha cravou 55% para Bolsonaro e 45% para Haddad. Ibope ficou em 54% e 46%. O resultado real, 55,1% e 44,9%, ficou dentro da margem de erro de todas as principais pesquisas.
Em 2022, o cenário foi diferente. No primeiro turno, na véspera da eleição, Datafolha mostrou Lula com 50% dos votos válidos e Bolsonaro com 36%. O Ipec mostrou 51% e 37%. O resultado real foi Lula com 48,4% e Bolsonaro com 43,2%. As pesquisas acertaram quem ficou em primeiro, mas subestimaram Bolsonaro em sete a nove pontos percentuais.
Por que erraram? Há hipóteses combinadas, e nenhuma fechada. Eleitores que silenciaram preferência (espiral do silêncio). Eleitores que decidiram nas últimas horas (mudança tardia de voto). Falhas amostrais em estados específicos. O fato é que, no segundo turno do mesmo ano, vários institutos (Datafolha, Quaest, MDA, Paraná Pesquisas) acertaram dentro da margem o resultado final de 50,9% para Lula contra 49,1% para Bolsonaro.
Essa irregularidade importa. Pesquisas funcionam bem em algumas situações e mal em outras. Quem lê o número precisa saber em qual situação está.
O que mudou com as redes sociais
Quando Noelle-Neumann formulou a espiral do silêncio em 1974, ela trabalhava com televisão, rádio e jornal impresso. O ambiente contemporâneo tem três diferenças relevantes.
A primeira é a multiplicação de fontes. O eleitor não vê uma pesquisa central, mas dezenas, com qualidade metodológica desigual. Algumas vêm de institutos com longa trajetória. Outras, de operações políticas disfarçadas de pesquisa. A qualidade do diagnóstico varia mais do que o público costuma assumir.
A segunda é a segmentação algorítmica. O eleitor não vê todas as pesquisas. Vê as pesquisas que algoritmos selecionam com base no seu histórico de interação. Em ambiente polarizado, isso amplifica a percepção de que “as pesquisas estão sempre erradas” para um lado, e “as pesquisas estão certas” para o outro.
A terceira é a velocidade. Pesquisas que antes eram absorvidas em ciclos semanais agora circulam em horas. O efeito bandwagon, o voto útil e a espiral do silêncio operam num ritmo acelerado, com menos tempo para o eleitor processar.
O que isso muda para quem lê
Tenho minha posição sobre esses mecanismos, mas ela é menos importante que a observação central: pesquisa eleitoral não é só dado. É também ferramenta política. Quem encomenda, quem divulga e em que momento divulga fazem parte do cálculo.
Isso não significa que pesquisas sejam manipulação. Significa que o resultado de uma pesquisa interfere no comportamento que ela pretendia medir.
Para o eleitor, três perguntas ajudam a ler números com mais cuidado. Quem é o instituto? Qual a margem de erro? E principalmente: o que essa pesquisa está sendo usada para fazer no debate público nesta semana?
Reconhecer essas três coisas não anula o efeito das pesquisas. Mas reduz a chance de o leitor ser, sem perceber, parte do mecanismo que a pesquisa pretende medir.
Fontes e referências
- ASCH, Solomon E. “Opinions and Social Pressure”. Scientific American, 193(5), 1955, pp. 31-35.
- NOELLE-NEUMANN, Elisabeth. “The Spiral of Silence: A Theory of Public Opinion”. Journal of Communication, 24(2), 1974, pp. 43-51. DOI: 10.1111/j.1460-2466.1974.tb00367.x. [Fonte acadêmica]
- McALLISTER, Ian; STUDLAR, Donley T. “Bandwagon, Underdog, or Projection? Opinion Polls and Electoral Choice in Britain, 1979-1987”. The Journal of Politics, 53(3), 1991, pp. 720-741. DOI: 10.2307/2131577. [Fonte acadêmica]
- CNN Brasil. “Datafolha: Flávio Bolsonaro tem 46% e Lula, 45% no 2º turno”. 11 abr. 2026.
- Congresso em Foco. “Quatro pesquisas acertaram a votação de Lula e Bolsonaro. Veja quais”. Out. 2022.
- Seu Dinheiro. “Eleições 2022: Pesquisas do Ipec e Datafolha erraram resultados das urnas em até 20 pontos percentuais nos estados”. 10 out. 2022.

