sábado, 08 de agosto de 2026

Quase 700 mil brasileiros pediram para se bloquear de apostas. O que isso diz sobre como o jogo é desenhado para prender

O governo anunciou que quase 700 mil pessoas já recorreram à autoexclusão de apostas online. O número é alto, mas o mecanismo que ele revela é mais revelador do que a cifra: as bets não dependem de sorte para reter o apostador. Dependem de um princípio que a psicologia descreve há mais de 70 anos.
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Mão segurando smartphone com app de apostas em ambiente doméstico noturno, luz azulada de tela.
Ilustração editorial gerada por inteligência artificial.

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O Ministério da Fazenda informou nesta sexta-feira (19) que quase 700 mil brasileiros já usaram a ferramenta de autoexclusão de apostas online, lançada pelo governo em dezembro do ano passado. Quem aciona o mecanismo fica impedido de se cadastrar em qualquer casa de apostas autorizada e deixa de receber publicidade do setor, por prazo que vai de um mês a indeterminado.

O tamanho do número impressiona. Mais relevante que a cifra, porém, é o que ela revela sobre o produto. Centenas de milhares de pessoas pedindo, voluntariamente, para serem bloqueadas de algo costuma indicar que esse algo foi construído para ser difícil de abandonar.

O princípio que sustenta o jogo

As apostas de quota fixa retêm o apostador com uma técnica específica, batizada na psicologia comportamental de reforço de razão variável.

O conceito vem do trabalho do psicólogo americano B.F. Skinner, que nos anos 1950 estudou como diferentes esquemas de recompensa afetam a persistência de um comportamento. Um esquema de recompensa fixa, ganhar sempre depois de um número certo de tentativas, gera comportamento previsível e fácil de abandonar quando a recompensa para de vir. Um esquema de recompensa variável, ganhar de forma imprevisível, às vezes na terceira tentativa, às vezes na vigésima, produz o contrário: o cérebro nunca sabe se a próxima tentativa será a que paga, e por isso o comportamento resiste mais à extinção.

Skinner chegou a essa conclusão estudando pombos pressionando barras. Décadas depois, o mesmo achado tornou-se peça central do design de caça-níqueis, loterias e aplicativos de apostas esportivas. As três categorias compartilham a mesma arquitetura de recompensa porque a indústria do entretenimento de azar aprendeu cedo a lição de Skinner e a aplicou de forma sistemática.

O quase-acerto que engana o cérebro

Há uma camada adicional, descrita pela literatura como efeito do quase-acerto. Apostadores que perdem por pouco (a bola na trave, o time empatando no fim, o número que sai ao lado do apostado) registram esse quase-acerto como sinal de proximidade da vitória. Na estatística, perder por pouco e perder feio valem exatamente o mesmo: zero. O cérebro, porém, trata as duas situações de forma diferente, e o quase-acerto funciona como reforço parcial mesmo sem premiar coisa alguma.

Uma revisão de literatura conduzida na PUC Goiás, apresentada como trabalho de conclusão de curso, reuniu 65 artigos científicos sobre jogos de azar online. A conclusão central foi direta: o reforço variável presente nas apostas estimula a liberação de dopamina e sustenta o comportamento de jogar mesmo diante de perdas consecutivas. O ambiente digital amplia esse efeito ao eliminar fricções que existiam no jogo físico, como sair de casa, esperar a vez ou lidar com um caixa humano. O aplicativo permanece disponível a qualquer hora, e a próxima aposta fica a um toque de distância.

Por que pedir bloqueio é diferente de pedir força de vontade

O desenho de uma ferramenta de autoexclusão segue lógica peculiar à luz desse mecanismo. Em vez de convencer o usuário a interromper o comportamento, a ferramenta remove fisicamente a possibilidade de continuar. A escolha de design tem explicação no próprio mecanismo psicológico: pedir a alguém em esquema de reforço variável que recorra à força de vontade equivale a pedir pouco, já que esse esquema foi refinado por décadas de pesquisa comercial com o objetivo específico de superar justamente esse tipo de resistência.

Dos quase 700 mil pedidos de bloqueio (o número de maio era 574 mil, o que mostra crescimento acelerado em poucas semanas), o Ministério da Saúde já havia apurado que 41% dos usuários apontaram perda de controle sobre o próprio jogo como motivo principal para buscar o bloqueio. A escala da resposta funciona como um indício relevante: centenas de milhares de pessoas reconhecendo que o comportamento havia deixado de ser escolha livre e passado a operar como hábito sustentado por arquitetura de reforço.

O que a autoexclusão resolve, e o que não resolve

O crescimento da autoexclusão trata o sintoma para quem já percebeu o problema, mas deixa intacta a engrenagem que o produz. Essa engrenagem continua ativa para o restante do mercado e tende a seguir funcionando enquanto a conversa pública tratar apostas como entretenimento neutro, em vez de reconhecê-las como o que parte da literatura científica já descreve: um produto de risco, projetado com técnica precisa para dificultar o abandono.

Fontes e referências

  1. Ministério da Fazenda. “Governo do Brasil amplia mecanismos de asfixia financeira contra o mercado ilegal de apostas”. gov.br/fazenda, 19 jun. 2026.
  2. Ministério da Saúde. “Governo do Brasil lidera debate na OMS para regulação global de apostas eletrônicas”. gov.br/saude, maio 2026.
  3. SKINNER, B. F. Science and Human Behavior. New York: Macmillan, 1953.
  4. Repositório PUC Goiás. “Jogos de Azar Online e Dependência Comportamental: revisão de literatura”. TCC, Análise do Comportamento.
  5. The Near-Miss Effect in Slot Machines: A Review and Experimental Analysis. PMC, National Institutes of Health.

Foto de Antonio Miranda

Sobre o Autor

Antonio Miranda é fundador e editor da SUASOR. Pesquisador da influência em sentido amplo, dedica-se há mais de 10 anos ao estudo dos mecanismos que moldam a percepção pública: como narrativas se constroem, como símbolos persuadem, como mensagens se propagam e se sedimentam em sociedades. Seu interesse atravessa a história da propaganda, a psicologia social, a comunicação estratégica e o que hoje se discute sob o nome de operações de informação. Desenvolve pesquisa contínua em fontes acadêmicas, documentais e jornalísticas. Na SUASOR, escreve com a convicção de que a alfabetização em influência é uma necessidade pública contemporânea. O projeto procura ensinar o leitor a perceber as estruturas invisíveis que sustentam mensagens, marcas, discursos e tendências.

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