Em 1º de outubro de 2026, último dia previsto no calendário do Tribunal Superior Eleitoral para circulação paga de propaganda eleitoral na internet antes do primeiro turno, a pergunta decisiva sobre anúncios políticos digitais começa antes do feed: o que passa pela triagem da plataforma?
Dois experimentos divulgados neste ano ajudam a examinar esse ponto. Em agosto, a Anistia Internacional informou que oito de 15 anúncios de teste com desinformação eleitoral foram aceitos pelo Facebook. Em setembro, a organização Ekō relatou que 13 de 15 peças submetidas ao Instagram e ao Facebook receberam aprovação. As peças foram canceladas pelos pesquisadores antes da veiculação, segundo as organizações e a reportagem da Folha de S.Paulo. Os números chamam atenção, mas seu alcance precisa ser entendido com precisão.
A aprovação abre uma porta para a distribuição paga
Anúncios políticos compram acesso ao público por meio dos sistemas de publicidade das plataformas. A peça passa por etapas de classificação e revisão antes de poder ser veiculada. Nesse percurso, a plataforma precisa reconhecer que se trata de publicidade política, identificar quem paga e aplicar suas regras de conteúdo e as exigências eleitorais pertinentes.
O experimento da Ekō, realizado em agosto e divulgado em 17 de setembro, submeteu 15 anúncios com imagens feitas por ferramentas de IA. Entre os exemplos descritos pela reportagem da Folha estavam alegações falsas sobre a data da eleição e uma imagem sintética que associava Donald Trump ao senador Flávio Bolsonaro. A organização disse que 13 peças foram aprovadas e nenhuma recebeu a classificação de anúncio sobre temas sociais, eleições ou política. Os testes usaram uma conta sediada nos Estados Unidos, aspecto que a Ekō apontou como potencialmente irregular.
Em agosto, a Anistia Internacional relatou outro experimento, também com 15 anúncios em português direcionados a eleitores brasileiros. Oito foram aceitos; os outros sete foram encaminhados para verificação de identidade por aparentarem tratar de temas políticos, e não barrados especificamente por causa da desinformação, segundo a entidade. As duas rodadas indicam que conteúdo problemático pode atravessar filtros de aprovação. Elas não medem quantas pessoas veriam os anúncios, nem demonstram qualquer efeito sobre o voto.
Os testes medem uma falha possível, não a escala do problema
Há limites importantes. As amostras são pequenas e foram construídas por organizações que queriam testar as políticas da plataforma. Os resultados descrevem apenas aquelas peças, contas e condições de envio. Não permitem calcular a taxa geral de aprovação de anúncios eleitorais, comparar a qualidade da moderação em todas as línguas ou concluir que houve uma operação coordenada de influência estrangeira.
Há também diferença entre aprovação para veiculação e exposição real. As organizações informaram que retiraram os anúncios antes da publicação. Assim, o teste observou a porta de entrada do sistema, sem verificar impressão, alcance ou reação de usuários. A conclusão mais segura é delimitada: nas condições testadas, anúncios que as organizações classificaram como enganosos foram aceitos para veiculação.
A própria Meta declarou à Folha que reforça seu compromisso com a proteção do processo eleitoral em suas plataformas. Em materiais institucionais, a empresa afirma que exige autorização e identificação de anunciantes políticos e mantém uma biblioteca de anúncios. Os experimentos colocam essas salvaguardas diante de uma questão prática: como os controles funcionam quando a classificação automática falha?
As regras dependem também de identificação e rastreabilidade
As normas eleitorais brasileiras tratam de identificação de conteúdo produzido ou alterado com inteligência artificial e estabelecem obrigações para a propaganda paga na internet. A Portaria nº 463 do TSE detalha o que plataformas devem descrever em seus planos de conformidade: critérios de aprovação e retirada, identificação do anunciante, biblioteca de anúncios e procedimentos para verificar quem contrata impulsionamento político. A resolução sobre o calendário eleitoral também marca 1º de outubro como o último dia para circulação paga ou impulsionada de propaganda na internet no primeiro turno.
Essas regras mostram por que a classificação de um anúncio importa além do rótulo. Se uma peça política deixa de ser reconhecida como tal, podem falhar ao mesmo tempo a transparência sobre o pagador, a consulta pública e a fiscalização dos gastos. A Ekō alegou que seus anúncios aprovados não receberam identificação política; a reportagem da Folha também registrou que, segundo a organização, as peças foram submetidas e retiradas sem chegar a usuários. São achados atribuídos a um teste específico, não uma auditoria abrangente da biblioteca de anúncios da Meta.
O ponto de acompanhamento está na prestação de contas
O mecanismo em jogo é simples de enunciar e difícil de auditar: a publicidade paga permite ampliar deliberadamente a circulação de uma mensagem, enquanto a classificação inicial decide se ela entra nesse circuito e com quais informações de transparência. Imagens sintéticas tornam a produção de peças mais fácil; a pressão maior recai sobre a capacidade de reconhecer contexto, intenção e regras locais em escala.
Os experimentos oferecem um sinal de risco, não uma prova de interferência eleitoral consumada. Acompanhar a resposta exige observar quais critérios a Meta usa, como verifica anunciantes estrangeiros, se corrige anúncios aprovados por engano e que dados apresenta ao TSE. Também importa verificar se a biblioteca permite rastrear quem pagou e como as decisões de moderação são contestadas. Sem esse tipo de prestação de contas, o público vê a mensagem que circula, mas pouco enxerga sobre os filtros e os interesses que a fizeram chegar até ali.

